A "droga do amor", que turbina as raves, existe há quase 90 anos,
promete felicidade e, sim, oferece riscos à saúde



 
 


A
batida seca da bateria, repetitiva, quase hipnótica, é entremeada por ruídos eletrônicos que parecem emanar de uma nave extraterrestre. As luzes fortes, cítricas, alternam-se no ritmo da música. Nada por ali é opaco. As cores cobrem tudo. E são vibrantes, fluorescentes. De repente, malabaristas mascarados aparecem fazendo círculos de fogo no ar, espalhando pela madrugada cheiro de querosene. Outros carregam pequenos bastões de neon verde, que lembram criptonita, e caminham em direção a uma tenda de circo onde mais de mil pessoas dançam em meio à fumaça colorida, numa espécie de transe coletivo. É uma e vinte da manhã. Cedíssimo para uma rave. A festa está só começando.

 

Inspiradas nos festivais psicodélicos dos anos 60 e 70, as raves são festas quase sempre realizadas ao ar livre em antigas fábricas, armazéns abandonados e sítios nos arredores de metrópoles como São Paulo ou Nova York. São um misto de clube noturno e parque de diversões. E podem durar mais de 15 horas ininterruptas. "É para agüentar esse ritmo que muita gente toma o 'E'", diz Alê de Lima, que organiza raves há mais de cinco anos. "E" é a abreviação de ecstasy, o combustível dessa maratona dançante. Não é preciso muito mais do que meia hora para que o pequeno comprimido colorido comece a produzir sorrisos contagiantes e uma sensação de bem-estar, alegria e leveza. "Não é preciso nem acompanhar a batida eletrônica, é só deixar o ritmo conduzir os seus movimentos. É como se você estivesse dentro da música", diz C.C., de 23 anos, estudante carioca de Comunicação.

 

Os efeitos não param por aí. Com a dilatação da pupila, as luzes ganham um brilho especial e os olhos ficam mais sensíveis - daí os óculos de lentes amarelas, tipo night vision. E o mais notável: uma hipersensibilidade do tato. Qualquer toque no corpo, sob o efeito do ecstasy, tem a sensação multiplicada. Muitos se encostam e se abraçam como se todo o corpo fosse uma grande zona erógena. As mulheres, principalmente, falam do aumento do desejo sexual - uma sensação que acabou conferindo ao "E" outro famoso apelido: droga do amor. Além disso, o "E" é discreto - comparado a outras drogas, não tem o cheiro forte da maconha nem requer uma assimilação agressiva como a cocaína.

 

São esses relatos que insuflam o apelo do ecstasy junto à moçada. A idéia vendida é que, por 30 ou 40 reais - o que qualquer adolescente de classe média gasta numa noite de sábado -, pode-se comprar um comprimido do tamanho de uma aspirina, que vem com a felicidade dentro. O resultado é que o "E" está cada vez mais fora do gueto, atraindo cada vez mais jovens com sua imagem de droga "benigna".

Em Nova York, um em cada quatro jovens já experimentaram a droga